SER PROFESSOR HOJE | Rede de apoio ao trabalho docente


SER professor hoje| Rede de apoio ao trabalho colaborativo dos professores em contexto escolar

 

“Um pássaro não voa dentro de água. Um peixe não nada em terra. Um professor não se forma nos atuais ambientes universitários, nem em ambientes escolares medíocres e desinteressantes.”
 (António Nóvoa, Escola e Professores, Proteger-Transformar-Valorizar, 2022)

 

A profissão de professor está em crise em bastantes países europeus, incluindo Portugal. Há uma constante falta de docentes nas escolas, a profissão não é atraente, é mal remunerada, o corpo docente está cada vez mais envelhecido e há poucas oportunidades na progressão de carreira.

Nos últimos 10 anos a percentagem de diplomados no Ensino Superior nos cursos de Educação caiu de 8,6% em 2011 para 5% em 2020, colocando mais uma vez Portugal abaixo da média da UE e da OCDE. Contudo, não é só a percentagem de diplomados no Ensino Superior que cai; a própria escolha na licenciatura também tem caído. Desde 2010/2011 até 2019/2020, foram menos 52,4% os inscritos nos cursos superiores de educação.

Atualmente a formação de professores ainda deixa muito a desejar. Existe uma certa incapacidade para colocar em prática conceções e modelos inovadores. As instituições ficam fechadas em si mesmas.

Por outro lado, manter-se atualizado sobre as novas metodologias de ensino e desenvolver práticas pedagógicas mais eficientes são uns dos principais desafios da profissão. Concluir a formação inicial é apenas uma das etapas do longo processo de capacitação. O melhor lugar para aprender a lecionar melhor é a própria escola. Segundo NOVOA, A. “A produção de práticas educativas eficazes só surge de uma reflexão da experiência pessoal partilhada entre os colegas”, afirma ainda que “a bagagem teórica terá pouca utilidade, se não se fizer uma reflexão global da própria profissão. Ao mesmo tempo, é preciso combater a mera reprodução de práticas de ensino, sem espírito crítico ou esforço de mudança.

Os anos iniciais da profissão definem, positiva ou negativamente, grande parte da carreira. É inaceitável que uma pessoa que acabou de se formar fique encarregada das piores turmas, muitas vezes sem apoio nem acompanhamento. Quem está começando precisa, mais do que ninguém, de suporte metodológico, científico e profissional.

Historicamente, os docentes desenvolveram identidades isoladas. Falta uma dimensão de grupo, que rejeite o corporativismo e afirme a existência de um coletivo profissional. NOVOA, A. refere-se “à participação nos planos de regulação do trabalho escolar, de pesquisa, de avaliação conjunta e de formação continuada, para permitir a partilha de tarefas e de responsabilidades. As equipes de trabalho são fundamentais para estimular o debate e a reflexão. É preciso ainda participar em movimentos pedagógicos que reúnam profissionais de origens diversas em torno de um mesmo programa de renovação do ensino”.

A proposta de um trabalho em rede regional e nacional, em coordenação com o regime jurídico de formação continua de professores e a formação inicial podem consolidar sistemas de ação coletiva no seio do professores. Não se trata de adesões ou ações individuais, mas da construção de culturas de cooperação. O esforço de pensar a profissão em grupo implica a existência de espaços de partilha além das fronteiras escolares. Trata-se da participação em movimentos pedagógicos, da presença em dinâmicas mais amplas de reflexão e da intervenção no sistema de ensino. No passado, esses movimentos tiveram um papel insubstituível na afirmação social da classe. Hoje, são decisivos para a sua renovação.

A formação é algo que pertence ao próprio sujeito, Paulo Freire explica-nos que ela nunca se dá por mera acumulação. É uma conquista feita com muitas ajudas: dos mestres, dos livros, das aulas, dos computadores. Mas depende sempre de um trabalho pessoal. Ninguém forma ninguém. Cada um forma-se a si próprio.

A pertinência das Redes, de equipas de trabalho colaborativo e estágios integrados reside na compreensão da contribuição específica dos professores e na identificação da cultura profissional docente.

 

Adptação de Nova Escola, “Professor forma-se na escola”,  Paola Gentile, 2001