QUATRO (4) IDEIAS PARA UM CURRICULO DO SÉC. XXI


 

O que está a mudar na escola e no currículo?

Não será todo este discurso de diferenciação, flexibilidade, inclusão  e autonomia mais uma nova maquiagem para práticas que nunca poderão ser muito diferentes? Provavelmente muitos professores estão convictos disso mesmo. Porém, as mudanças estão a ocorrer por força da evolução social e económica. É, pois, fundamental compreender e articular esta mudança com a prática real que passa necessariamente por procurar formas de gerir e organizar a escola e o desempenho dos seus atores. Neste contexto, deixo quatro ideias para um debate, sempre adiado, mas que urge ter nas nossas comunidades educativas.

1.ª IDEIA – A Escola Tem de Mudar

O conhecimento científico e tecnológico  desenvolve-se a um ritmo vertiginoso, tornando obsoleto o que é hoje novo e seguro

… cada vez há mais incertezas que não podem ser superadas com o conhecimento existente,

… o futuro será muito distinto do presente, mas ninguém sabe muito bem como é que ele será.

O trabalho do futuro  exigirá um nível elevado de autoconhecimento para trabalhar em fluxos de conhecimento com uma mentalidade transdisciplinar de colaboração humana e de tecnologia.

A escola, que tinha a missão de desenvolver saberes para um mundo conhecido, tem agora a missão adicional de construir autonomia para um mundo desconhecido. Esta  autonomia é debatida há várias décadas, em 1998, o Relatório Delors reforçava os princípios de uma educação para a autonomia assente em quatro pilares:  aprender a saberaprender a fazer,  aprender a viver em conjunto e aprender a ser.

2.ª IDEIA – A Escola das “Pedagogias da explicação” vs “Pedagogias da autonomia”

Segundo FIGUEIREDO, António Dias, 2021, as “pedagogias da explicação” continuam a predominar nas nossas escolas, dificultando, em vez de facilitarem, o desenvolvimento da autonomia.

Ao partirem do princípio de que tudo deve ser explicado pelo professor, em vez de descodificado e apropriado pelo aluno, criam a convicção de que cabe ao professor a responsabilidade de “ensinar” e ao aluno a tarefa de “reter” o que foi explicado. Esta dependência está tão enraizada nas rotinas escolares dos nossos dias.

Em oposição a estas “pedagogias da explicação”, que predominam há mais de dois séculos, as “pedagogias da autonomia” ajustam-se na perfeição à era de complexidade, incerteza e interação social em que vivemos.

Estas pedagogias coexistem com uma grande variedade e que assentam em três tradições pedagógicas que se sobrepõem parcialmente: as pedagogias da emancipação, de socialização e do projeto.

As pedagogias da emancipação vista como uma abordagem pedagógica na simulação e o jogo, ou a pedagogia dos casos e das pedagogias invertidas (flipped learning) são também indutoras de emancipação, ao incumbirem os alunos de estudarem autonomamente um tópico a aprender.

As pedagogias da socialização exploram a produção pessoal de trabalhos que são tornados públicos e discutidos e avaliados pelos pares em redes sociais. Outras pedagogias da socialização são as pedagogias da colaboração, (personal learning environments)

As pedagogias de projeto  incluem várias modalidades que se sobrepõem parcialmente:

– as pedagogias da criação, que incentivam o uso livre da criatividade; a aprendizagem baseada em projectos (project-based learning), uma das práticas pedagógicas mais promissoras da atualidade;

– as pedagogias do pensamento de designer (design thinking) que progridem por aproximações sucessivas segundo percursos de síntese que conciliam as partes e o todo.

3.ª IDEIA – A transição de uma cultura da explicação para uma cultura da autonomia

Esta transição confronta-se desde logo com os hábitos de passividade e dependência que é a normalidade, e a normalidade deve continuar.

O que se impõe na escola para a autonomia é uma reforma das pedagogias. A reforma das pedagogias levará certamente à adaptação dos currículos, mas o essencial da mudança está nas pedagogias. É, pois, urgente que a escola proporcione a mobilização de múltiplas literacias (competências) que responda aos desafios colocados à sociedade,  através da formação de cidadãos aptos e autónomos capazes de pensar critica e criativamente.

O perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade afirma-se nestes pressupostos como documento de referência para todo o sistema educativo, como matriz para decisões da organização e gestão curriculares e, ainda, par a definição de estratégias, metodologias a utilizar na prática letiva. Mudar os currículos centrados exclusivamente no conhecimento, para um novo paradigma curricular integrador com foco no desenvolvimento nas dez áreas de competências.

4.ª IDEIA – A decisão curricular conjunta e de deliberação coletiva na escola

Maria do Céu Roldão, conhecida teórica no campo do currículo, dá o seu próprio exemplo para ilustrar o modo habitual como os professores são, na época descrita e ainda hoje, iniciados na profissão.

 

“ Quando comecei a ensinar, recebi do diretor da escola onde fui colocada um horário,  a indicação do livro que deveria usar nas aulas, um mapa para

marcação de testes, a data das reuniões de notas, o nome das colegas de grupo e ainda algumas recomendações

paternais atendendo à minha pouca idade e manifesta inexperiência no ofício.

Estava entregue o CURRÍCULO, e estava encomendada a professora… que ainda nem sabia que o era…”

 

Em toda e qualquer prática educativa está sempre presente um determinado modo de concretizar uma opção de gestão curricular. Seja na mais tradicional, na mais adequada ou na mais incorreta prática, existe uma opção sobre o que ensinar, como organizar a aprendizagem, quando e como avaliar os resultados ou seja, a gestão curricular é inerente a qualquer prática docente.

No texto referido estão presentes todos os elementos de desenvolvimento curricular, a saber:

O livro … um conceito de currículo

 

– conteúdo sem função de certas finalidades, modos

de organizar materiais e atividades;

O horário … uma estruturação de  currículo

 

– tempos letivos, sequencia aprendizagem, dimensão

composição turmas;

O mapa … natureza do processo de ensino

 

– marcação de teste, rotinas orientadas para

o cumprimento;

As reuniões de

“notas”

… conceito de avaliação – avaliação de resultados expressa apenas em notas,

indefinição de critérios;

As recomendações … tipo de organização – uma forma de liderança, orientações pedagógicas.

 

O currículo corporiza a opção organizativa e metodológica que se faz, num dado contexto, tempo e circunstância, para conseguir as aprendizagens pretendidas.

O currículo assume assim um duplo significado – é, por um lado, o  corpo de aprendizagens que se quer fazer adquirir e é também o modo, o caminho, a organização, a metodologia que se põe em marcha para o conseguir, em que todos devem ser parte das perguntas e das respostas para a sua escola.