IMERGIR NA ARTE, ENTRE FIOS E TRAMAS …


Realizou-se o Encontro Nacional de Professores | Residência Artística, com a temática agregadora “Arte contemporânea – processos e tecnologias artísticas na escola”, nos dias 21, 22 e 23 de novembro, IPDJ – Lisboa. O Encontro Nacional mobilizou cento e trinta (130) participantes dos quais sessenta e dois (62) em regime interno, o que significou o serviço de quinhentas e vinte (520) refeições. Com nove (9) workshops e quatro (4) conferências o evento resultou num momento de encontro, partilha e descoberta artística, com vinte e cinco (25) horas de formação acreditada pelo CPCFC.

A ARTE CONTEMPORÂNEA como ferramenta primordial para o desenvolvimento da CRIATIVIDADE, da COMUNICAÇÃO, da COLABORAÇÃO e do PENSAMENTO CRÍTICO assumiu uma centralidade em todo o Encontro/Residência. SOMOS NÓS, OS MEDIADORES dessas áreas de competências e de saberes históricos culturalmente validados que entendemos o papel das diversas manifestações artísticas e tecnológicas a oferecer aos alunos. Neste sentido, o desígnio da residência artística  teve como foco essencial o aperfeiçoamento das competências profissionais e pedagógicas de todos professores presentes. Com uma programação diversificada, entre conferências, workshops experimentais, momentos de reflexão e partilha, orientados por artistas convidados e formadores credenciados pensamos que as expetativas foram largamente alcançadas, como ilustra a Galeria audiovisual do site da Residência

Da residência floresceu o instante, o momento formativo e profundo onde mãos, olhares e vozes teceram sentidos para a vida. Ao longo de toda a Residência sentiu-se o poder transformador da Arte e a vontade de construir na Escola a Arte que não se  decreta!

No primeiro momento de abertura do Encontro, de forma antecipada, quase premonitória, o Sr. Diretor Geral de Ensino, David Rocha, num texto magnífico, enquadra o mote da imersão artística da Residência  “Conversas em volta de Fios e Tramas …” e coloca  as perguntas fundamentais, de acordo com o título da sessão  “Arte contemporânea na escola e a Centralidade da arte no currículo”, o tecido curricular atinge o desígnio de situar a arte como elemento intrínseco ao desenvolvimento de competências. Por outras palavras:

  • Em que medida os fios dos documentos curriculares se alinham com esta visão holística da arte nas aprendizagens e para as aprendizagens?
  • De que modo o processo de tecelagem curricular na escola destaca a arte como catalisadora de mais e melhores aprendizagens?
  • Até que ponto a trama e a urdidura da articulação curricular na escola incluem a compreensão, a interpretação e a expressão artística no processo de desenvolvimento das áreas de competências do Perfil dos Alunos?

Vale a pena reproduzir todo o texto da apresentação.

“Arte contemporânea na escola e a Centralidade da arte no currículo

Agradeço o convite da Associação Nacional de Professores de Educação Visual e Tecnológica para participar na sessão de abertura desta residência artística. Cumprimento especial aos docentes que durante estes três dias irão ajudar a construir a teia que nos une: a da Educação. Com os fios orientadores desta iniciativa, procurarei tecer, agora, uma manta de ideias que irão ligar o currículo, a escola e a arte.

Inspirando-me na história de Teseu, irei experimentar usar o fio de Ariadne, para me conduzir neste desafio em torno da arte como aliada nesta escola que queremos promotora de competências para um mundo cada vez mais complexo. Tal como um fio é a narrativa de um processo de transformação, assim o currículo pode ser analisado como um caminho de construção e depuração que visa oferecer aos alunos ferramentas para uma cidadania ativa, exigente e humanista.

Tudo começa na flor de algodão, nas fibras do linho ou na pelagem da ovelha, cuja natureza basilar, depois de selecionada e tratada (entre outros rituais), se irá metamorfosear em criação. Efetivamente, também o currículo vai colher à natureza e a outras fontes do saber a matéria-prima essencial para garantir a qualidade das aprendizagens. Muito embora esta seja uma escolha criteriosa, pois é reunida de acordo com as especificidades do seu uso, é necessário selecionar as aprendizagens a serem efetuadas por disciplina, ano e ciclo de ensino, recorrendo ao exercício crítico da análise da adequação, da validade e do seu contributo para a formação de um perfil de aluno. Para este efeito, importa conjugar os vários pontos de vista (profissionais, académicos e da sociedade civil), para que as escolhas efetuadas vão ao encontro das necessidades científicas, tecnológicas e artísticas para o atual e vindouro contexto.

Depois desta fase inicial, há que cardar o currículo, criando alinhamentos e mechas que delineiam uma lógica inerente às aprendizagens e à sua intencionalidade, com princípios, visão, valores, áreas de competências (interligando conhecimentos, capacidades e atitudes), dimensões, domínios, temas, descritores de aprendizagem, ações estratégicas de ensino, entre outros. Segue-se consequentemente a fiação de linhas condutoras que irão dar força e coesão aos referenciais curriculares, os quais passarão por novos controlos de qualidade, por exemplo, através do ato democrático de consulta pública.

A partir deste momento, deverá ser lançada o desafio que as Escolas abraçam todos os dias: o que fazer com os fios do currículo? Estas são, efetivamente as linhas para tecer cidadãos estruturados a partir de aprendizagens articuladas, que permitem uma visão de mundo mais integrada e com mais sentido aos olhos dos alunos. Imprescindível a qualquer tapeçaria ou manta, é necessário gravar nesta tecelagem um cenário contextual, a cola que liga os fios estruturantes deste tear curricular. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória cumpre este desígnio de mapear os fios curriculares, para que o trabalho seguinte de significação das aprendizagens se realize, através das ações estratégicas de ensino para o Perfil dos Alunos.

Portanto, assim como a lançadeira percorre o entrelaçado de fios no tear, na educação os docentes assumem se como os orientadores privilegiados que estabelecem significado às aprendizagens, cruzando-as com metodologias ativas, trabalho experimental, colaborativo e baseado na resolução de problemas a partir do mundo real. E que entrelaçado é este em que se desenvolvem as áreas de competências? É o do urdume, que lembra a articulação vertical entre anos, ciclos e níveis de ensino, bem como o da trama, que representa a articulação horizontal entre as várias disciplinas do conselho de ano ou turma. O exercício de organizar a escola como uma estrutura coerente de sentido também se constitui como uma tessitura de aprendizagens integradas e integradoras, em que todos os fios de encadeamento curricular contribuem para robustecer o desenvolvimento do Perfil dos Alunos.

Assim o que poderia ser uma manta monocromática e meramente funcional, converteu se em tecido pleno de experiência e de reflexão. Na verdade, transformou-se em mais do que a soma das partes e procedimentos. Para além de utilitário e rigoroso, o produto da tecelagem acolhe a valorização do sujeito e da flexibilidade criadora, passando para a dimensão artística. Desta forma, e depois de criado o enquadramento necessário com fios de aprendizagens, fios de competências, fios de metodologias e fios de articulação, o produto da tecelagem passa a assumir uma carga semântica que ultrapassa o cariz utilitário. Converte-se num repositório vivo de linguagens em profusão, de património e memória, de cultura em construção, de essencialidade do humano, de liberdade e movimento, de sensibilidade estética e pensamento crítico e de ligação do eu ao tu e ao nós. Por outras palavras, observa-se que entre o currículo e a arte são muito os fios que os unem, na procura do belo, do bom e do bem no que têm de perfeição e finalidade, materializados racionalmente na harmonia, na contemplação e na integridade. Existe mais um fator crucial para que currículo também seja arte, na medida em que a escola é o lugar em que a arte parte para o mundo, como um museu vivo, onde o tecido curricular gera espírito crítico, incubadoras de inspiração e redes de relações que revelam a excelência e o papel de cada um dos atores educativos. Efetivamente, a escola constitui-se: como um lugar de génese, criando contextos favoráveis à criação, na defesa dos valores holísticos da liberdade; como lugar de descoberta, ao reconhecer a arte como experiência estética que permite a aquisição sólida e mobilizadora de aprendizagens; e como ponto de partida para o mundo, através de um entendimento complexo da realidade, o qual induz à assunção de um papel ativo na sociedade.

A arte está atenta às extraordinárias redes luminosas de fibra ótica, plenas de informação, inovação e novas experiências que marcam a contemporaneidade. Também está em alerta face aos desafios que decorrem do alheamento do sujeito, não só à realidade concreta (e não virtual) e ao “outro” que o completa. Por este motivo, agudizam-se questões como a identidade, a relação com o corpo, a noção de memória e tempo, a sustentabilidade do planeta e os desafios das novas tecnologias, nomeadamente a Inteligência Artificial, bem como os problemas da polis e de justiça social associados à globalização e aos movimentos migratórios, entre outros.

Em suma, a arte encontra-se na dianteira da ação humana, ao anteceder as crises e ao problematizá-las nos seus diversos prismas, focando a emoção estética no absurdo, no desumano e no desconcerto. Esta é a constante que faz com que o objeto artístico, qualquer que seja a sua época ou proveniência, seja permanentemente contemporâneo, pois é sempre atual, nos seus traços e no seu conteúdo conjugados, aos olhos da recepção.

Chegados a este ponto, urge perguntar se, de acordo com o título desta sessão – “Arte contemporânea na escola e a Centralidade da arte no currículo”, o tecido curricular atinge o desígnio de colocar a arte como elemento intrínseco ao desenvolvimento de competências. Por outras palavras:

  • Em que medida os fios dos documentos curriculares se alinham com esta visão holística da arte nas aprendizagens e para as aprendizagens?
  • De que modo o processo de tecelagem curricular na escola destaca a arte como catalisadora de mais e melhores aprendizagens?
  • Até que ponto a trama e a urdidura da articulação curricular na escola incluem a compreensão, a interpretação e a expressão artística no processo de desenvolvimento das áreas de competências do Perfil dos Alunos?

Estas inquietações têm eco no Decreto-Lei n.º 55/2018 (na sua redação atual), quando a igualdade de oportunidade e de acesso à escola e a promoção do sucesso educativo se constituem princípios para a promoção e desenvolvimento de uma sensibilidade estética e artística junto dos alunos. Igualmente, a autonomia e flexibilidade que é conferida às escolas, a partir deste normativo, deve contribuir para “questionar os saberes estabelecidos, integrar conhecimentos emergentes, comunicar eficientemente e resolver problemas complexos”. Nestas competências, a arte pode ser uma impulsionadora desta postura analítica, integradora e interventiva, especialmente no conturbado e incerto contexto que experienciamos atualmente. Exatamente para este cenário atípico, o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória desenvolve múltiplas literacias basilares para uma aprendizagem sólida, esclarecida e contínua em evolução ao longo da vida adulta. Porque “[o] processo da criação e da inovação tem de ser visto relativamente ao poeta, ao artista, ao artesão, ao cientista, ao desportista, ao técnico – em suma à pessoa concreta que todos somos”, a criação está patente ao nível das disciplinas e das componentes do currículo inscritas nas matrizes curriculares ao longo da escolaridade obrigatória, ou em programas nacionais, como o Plano Nacional das Artes, cabendo às escolas traçar a sua própria estratégia, em sintonia com o contexto, de modo a promover uma cultura científica e artística de base humanista.

Conjuntamente, o Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho (na sua redação atual) deve ser tido em consideração, na medida em que a diversificação de estratégias pedagógicas pode estar associada a múltiplos meios de representação e expressão. A arte, nas suas várias manifestações, promove a participação ativa, a motivação e o desenvolvimento integral, especialmente para alunos para quem a tessitura da escola tem de se reinventar para os acolher com dignidade, a fim de que as suas competências sociais, emocionais e cognitivas ganhem vigor. Quanto à nova Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, a arte contribui entre outros aspetos, para acicatar os alunos face ao respeito pelos Direitos Humanos, à fragilidade da sustentabilidade e à valorização do pluralismo e da diversidade cultural, colorindo ainda mais os fios conjugados e tornando o quadro contextual ainda mais vívido, sentido e presente. Assim, a visão arrebatadora e plural da arte, que incute sentido crítico, memória e inquietação, leva à ação cidadã, que se quer esclarecida, empática e dignificante.

Os verdadeiros tecelões da Educação estão conscientes desta tarefa nobre que têm em mãos todos os dias. Nas escolas, o grande desafio será o de tornar a arte num propósito e não num acessório, numa aprendizagem e não num simples instrumento para aquisição de saberes, num exercício consciente e não num procedimento de retaguarda. Importa, por isso, sensibilizar todos os agentes – docentes, alunos, pais, encarregados de educação e parcerias – para a importância de incluir o conhecimento da arte e o desenvolvimento do sentimento estético nas práticas quotidianas. Destarte, os fios entrelaçados da aprendizagem serão ainda mais evidentes e marcados nas experiências de crescimento dos alunos. Fundamentais para esta finalidade, são os conselhos de turma, de disciplina, de ano e demais equipas pedagógicas, com as respetivas lideranças. Através do trabalho colaborativo, o labor do tecelão deixa de ser solitário e ganha mais dimensão, com impacto na escolaridade obrigatória e nas restantes aprendizagens ao longo da vida. Assim, o pensamento sobre uma molécula, uma equação, uma notícia, um jogo ou fenómeno atmosférico estará sempre ligado a uma técnica, a um movimento ou a uma emoção artística, reforçando a ideia e o sentir de que, se no mundo realmente tudo está ligado, então a escola deve ser um reflexo e um impulsionador desta dinâmica.

Despeço-me, desejando que todos os formandos levem, desta residência artística para as escolas, fios inspiradores que liguem o currículo e a arte a todos os alunos. Com o vosso “saber de experiência feita” (Luís de Camões, Os Lusíadas), irão contribuir para a Escola respirar liberdade, responsabilidade e integridade, cidadania e participação, excelência e exigência, e, last but not least, curiosidade reflexão e inovação.

Bem hajam!”

David Sousa Rocha