Um exemplo de Ensino@Distância saudável


José António Fundo *

Porque a partilha é o mais importante na Educação, correndo o risco de vos revelar a minha evidente incompetência, deixo aqui o caminho para espreitarem e reutilizarem as Propostas de Trabalho desenvolvidas para a disciplina de Educação Visual, do 3º ciclo, no regime de Ensino à Distância no Agrupamento de Escolas D. Afonso Sanches, em Vila do Conde.

Antes de tudo o resto foi fundamental definir os objetivos da disciplina para este período.

Esta tarefa é tão mais importante quanto devemos perceber que o contexto não permite desenvolver todo o tipo de competências previstas, muito menos exigir a aprendizagem de conteúdos específicos que dependem de um acompanhamento e feedback presenciais, porque permanentes e em diálogo. As aulas por vídeo conferência reforçam, mais do que qualquer outra coisa, um modelo expositivo que na disciplina de Educação Visual tem uma utilidade e eficácia muito limitadas.

Tendo como guião o documento do Ministério da Educação sobre as Aprendizagens Essenciais e sua articulação com o perfil do aluno para a Educação Visual , foi necessário fazer opções e apostar sobretudo em soluções onde o trabalho autónomo do aluno fosse fundamental. Cada proposta de trabalho deveria conduzir a uma experiência de resolução de um ou mais problemas de comunicação visual, onde fosse absolutamente fundamental fazer opções estéticas e de representação que implicassem a comunicação de uma mensagem por meio de uma imagem desenhada. A interpretação do problema e a investigação em torno das possibilidades de solução do enunciado deveriam ser promovidas de modo muito simples pelo próprio enunciado.

Por outro lado cada proposta de trabalho ou enunciado deveria propor algo completamente novo ao aluno, algo que ligasse o contexto da pandemia e do isolamento social, ainda que de modo um pouco indireto ou leve, e uma prática de comunicação visual motivadora e inesperada. Tudo isto ligado pela proposta de construção de um discurso visual bastante pessoal e enraizado nas experiências e vivências pessoais do aluno.

Os Organizadores das Aprendizagens Essenciais para a Educação Visual são três:

  • Apropriação e Reflexão;
  • Interpretação e Comunicação;
  • Experimentação e Criação.

Em todas as propostas estes três Organizadores/Domínios estão presentes. São convocados pelas experiências que se provocam. Quer pela investigação apoiada que propomos em cada um, com recurso a plataformas digitais de procura de imagens assentes em temas e formas, quer pela reflexão e interpretação pessoal que cada experiência exige.

Neste caso optou-se, de modo algo natural, pela rede social/aplicação Pinterest, pois permite a criação de álbuns dinâmicos com imagens e hiperligações que a própria aplicação interpreta e às quais vai acrescentado sugestões, criando um efeito de serendipidade.

Muito mais do que enunciar conteúdos a serem apreendidos deliberadamente pelo aluno, optou-se por atingir os objetivos pretendidos por meio da inteligência das propostas, deixando autonomia ao aluno para seguir o seu próprio caminho na exploração das soluções e no olhar para a realidade. Foi valorizada sempre a liberdade de pensar e de criar soluções novas.

As Áreas de Competências das Aprendizagens Essenciais privilegiadas para trabalhar neste contexto foram:

  • Informação e comunicação
  • Raciocínio e resolução de problemas
  • Pensamento crítico e pensamento criativo
  • Desenvolvimento pessoal e autonomia
  • Sensibilidade estética e artística

As propostas foram desenvolvidas dentro de algumas guidelines básicas para este contexto específico de trabalho:

  • Promover uma experiência de comunicação visual em vez de um exercício de virtuosismo artístico.
  • Possuir elasticidade do grau de complexidade de modo a poder ser aplicada no 7º, 8º e 9º ano e permitir a todos explorar os seus diferentes estilos de comunicação e competências pessoais.
  • Exigir o mínimo de recursos de hardware e software informático e o mínimo de tempo possível em frente ao ecrã de um computador.
  • Exigir o mínimo possível de material de expressão plástica. Lápis, folha de papel e qualquer material para colorir, este último opcional.
  • Trabalho individual de modo a não exigir aos alunos o uso de recursos informáticos e tempo na comunicação inter-pares.
  • Tempo de execução previsto para uma hora de trabalho semanal. Uma proposta a cada duas semanas.

Em cada proposta lançada seguiram-se estas limitações, considerando que o Ensino à Distância nos apanhou de surpresa, sem ser possível preparar os alunos para as dificuldades e para os desafios de utilização de ferramentas de software específicas.

A escolarização digital possível de se fazer à distância é muito limitada e sobretudo é fortemente condicionada pelas carências de hardware e software que existem em casa dos alunos. Mesmo a ligação à internet é deficiente e de custo elevado.

Nas escolas portuguesas, apesar de algumas melhorias, não existem praticamente políticas de utilização de software open source e a preguiça intelectual das administrações promove ferramentas caras e ineficazes, quase sempre da Microsoft, que as famílias têm dificuldade em instalar de modo legal. A disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) é, desde há anos e sem juízos críticos feitos seja por quem for na gestão, um fraco curso no Office da Microsoft e pouco mais. Essa problemática ficou mais evidente neste momento de necessidade urgente. Todos os alunos e professores ficaram dependentes de ferramentas digitais e da internet e ficamos a saber que vivemos no escuro. Ninguém sabe nada. O conhecimento da internet que os alunos têm é parco, distorcido e autodidata. O dos professores não é muito superior, se for.

A solução para implementar um modelo exequível implicava a distribuição de um enunciado em PDF por meio de um LMS (Learning Management System) de acesso simples e em browser, onde fosse possível e rápido inscrever os alunos, comunicar com eles e registar o feedback e a avaliação. A existência de uma app que permitisse o acesso fácil via telemóvel ou tablet seria importante. Apesar de ainda muito fracas, sobretudo para o papel de professor, as apps disponíveis para a maioria das soluções funcionam suficientemente bem para os alunos.

A plataforma escolhida por mim, mesmo que a escola e o departamento tenham franzido o sobrolho, foi o Google Classroom, uma vez que a todos os alunos da escola foi atribuída uma conta de email institucional da Google. A escola optou pelo Microsoft Teams, sem que se saiba bem porquê, e pagou por uma ferramenta inferior a outras a que já tinha gratuitamente acesso no Google Suite. Ninguém na gestão da escola tinha sequer noção disto, mas acharam-se ainda assim competentes para escrever um guião para o funcionamento de um modelo de ensino online. Saiu dali um monstro gigante e feio, burocratizado, carregado de falhas, contradições e redundâncias que acabaram por aumentar o trabalho dos professores e saturar os alunos com demasiadas aulas ineficazes por vídeo conferência e um excesso de trabalho de casa. Criou-se o conceito absurdo de «aula assíncrona»

Rapidamente o modelo da escola se transformou numa terrível e temível ferramenta para vigiar o dia-a-dia dos alunos e os condenar ao trabalho de horas em frente a um ecrã, sem qualquer ponderação ou reflexão pedagógica.

Em cada proposta de Educação Visual, desenhada dentro deste plano, pretende-se promover uma experiência, um desafio aliciante e divertido. Não há respostas certas ou respostas erradas. Em cada uma há a procura de motivar todos os alunos a resolver o desafio. A simplicidade é propositada. A complexidade do trabalho de alguns alunos é inteiramente responsabilidade da sua vontade de fazer coisas fantásticas.

O feedback é sempre sincero e direto. Sem medo da resposta de volta. A valorizar o que foi feito, sem medo de dizer o que falta ou foi menos bom. A crítica negativa vem sempre num contexto em que se deixa claro que se acredita que é possível fazer melhor com simples ajustes, ou mesmo que se compreende as dificuldades, sobretudo as de tempo e motivação.

Para cada trabalho foi realizado um vídeo, distribuído posteriormente à data de entrega, e publicado no Youtube, em que revelo a minha interpretação e execução do enunciado. A publicação posterior acontece para os alunos não sentirem a tentação da cópia. Assim, em cada vídeo, podem perceber como funciona o meu processo criativo e de resolução de problemas. Esse processo repete-se em todos os projetos. É muito importante que os alunos interiorizem a ideia de processo faseado e de liberdade criativa dentro dos limites do enunciado.

A avaliação utilizada foi qualitativa. Sendo que se considera «BOM» que um aluno, em casa, no contexto de uma pandemia global e de disrupção da normalidade consiga encontrar em si motivação para atacar as propostas. Qualquer trabalho que cumpra todas as condições expressas no enunciado e demonstre a dedicação do aluno recebe a menção de «MUITO BOM».

Ao longo de todo o processo do Ensino à Distância cerca de 61% dos alunos entregaram os seus trabalhos. 75% de alunos completaram a inscrição no Classroom. Sendo difícil dar um número certo os dados recolhidos pela escola davam cerca de 11% dos alunos do 3º ciclo com dificuldades de acesso à internet e/ou um computador. Lendo os números facilmente se pode concluir que menos de 5% dos alunos rejeitou os enunciados tendo todas as condições técnicas e logísticas para os fazer. Nenhum dos alunos que estão em regime de internato em instituições respondeu aos enunciados.

Em cada enunciado uma média de 70% dos trabalhos obteve uma menção de «Muito Bom», o que representa um grau de dedicação elevado na esmagadora maioria dos alunos que entregaram os trabalhos.

É mais fácil perceber e identificar o que não funciona em educação do que saber o que funciona. Não há receitas perfeitas. Podemos, com a informação que temos, bastante estudo, pensamento crítico e muita criatividade, desenvolver processos de trabalho mais eficazes. Para que funcione devemos em primeiro lugar definir com clareza os nossos objetivos.

Foi fundamental em todo este processo o diálogo entre professores e colegas de trabalho. A disciplina agiu de modo coordenado em todo o Agrupamento o que lhe deu força e sentido de orientação. Nunca se pretendeu, em momento algum, simular as atividades letivas normais. Essa foi uma das decisões mais acertadas, senão a mais importante e acertada de todas.

Os alunos, a sua evolução como seres humanos, a sua felicidade e a sua saúde mental estiveram no centro das nossas preocupações. Quando é assim está garantido o sucesso.

Descarregue ou consulte as propostas neste link.

 

(*) Artista plástico, Professor do ensino público, especialista na área da administração escolar e do ensino artístico especializado das artes visuais.