Urgência Didática e Pedagógica II


Erros do currículo (DecLei 55) que não vamos esquecer!

Por Carlos Gomes

Com a chegada da nova legislatura é bom reafirmar  posições consubstanciadas em estudos científicos plasmados em soluções internacionais. Porque um currículo vai muito para além das lógicas corporativas, porque deve emanar de fontes sociológicas, epistemológicas e psicológicas com consequências na sua natureza e construção, não é, não deve ser resultado de um modismo ou de uma forte influência lobista (por mais legitima que seja). A APEVT centra-se naquilo que pensa ser o melhor currículo para os alunos, por isso somos professores com opinião formada e firmada sobre o que deve ser o currículo nacional e temos toda a liberdade de discordarmos com soluções que achamos, sempre achamos, incorretas.

Da análise do Decreto-Lei  embora nele se reconheçam algumas alterações com sinal positivo nas matrizes curriculares, permanecem as nossas preocupações sobre o que ainda se revela insuficiente, nomeadamente: a estruturação dos planos curriculares atendendo aos princípios de equilíbrio, coerência, integração e sequência nos diferentes ciclos de estudo e a fundamentação científica e pedagógica sobre o lugar e papel da disciplina TIC na área artística e tecnológica nos 2º e 3º ciclos:

Da análise das orientações curriculares, nomeadamente no Perfil dos Alunos e nas Aprendizagens Essenciais do 2º ciclo, constatamos uma TIC que pesquisa, trata, produz, comunica e colabora através das tecnologias digitais, com ações estratégicas eminentemente interdisciplinares numa lógica transversal e de projetos, nomeadamente, nas áreas de competências de “Linguagens e textos”, “Informação e comunicação” e “Raciocínio e resolução de problemas”, etc. Consideramos por tudo isto que as TIC no 2º ciclo devem assumir-se como área de natureza transdisciplinar, à semelhança do proposto para o 1º ciclo.

Da análise comparativa entre propostas de Aprendizagens Essenciais TIC prescritas para o 3º ciclo, verifica-se sobreposições e/ou apropriações ora com Educação Visual ora com Educação Tecnológica. Assim, em nosso entender, as TIC neste ciclo de estudos, para não se tornar numa disciplina redundante, deveria assumir um lugar e um papel formativo singular no aprofundamento da programação digital, numa lógica de disciplina de “Programação e Raciocínio Computacional – PRC, integrada na área das ciências exatas, revelando-se maior coerência e equilíbrio, quer para a singularidade das TIC/PRC, quer para a não atomização da área artística e tecnológica.

Mas, para além do que foi dito, importa sublinhar o propósito  dos decisores ignorarem que as ditas TIC  não são mais que uma área tecnológica das diversas que constituem a disciplina de Educação Tecnológica, como veremos mais à frente.

O  exemplo internacional abaixo indicado constitui-se instrumento mobilizador de novas propostas curriculares que urgem emergir na discussão educativa nacional, para que a Educação Tecnológica na escolaridade obrigatória não seja subalternizada ou extinta de vez.

O currículo da Nova Zelândia é a solução avançada de como se deve estudar Tecnologia no Ensino Básico e é também, a prova da frágil e infundada solução portuguesa das TIC como disciplina, e na Área Artística.

http://nzcurriculum.tki.org.nz/…/Te…/Learning-area-structure

A área de aprendizagem da tecnologia possui três vertentes: Prática Tecnológica, Conhecimento Tecnológico e Natureza da Tecnologia. Esses três fios são incorporados em cada uma das cinco áreas tecnológicas:
– pensamento computacional para tecnologias digitais
– projetar e desenvolver resultados digitais
– projetar e desenvolver resultados de materiais
– projetar e desenvolver resultados processados
– design e comunicação visual.
O diagrama a seguir ilustra a estrutura da área de aprendizagem.

 

Tal como referenciado neste artigo e no Parecer conjunto, (APEVT, APEM, APECV e APROTED),  de abril de 2018 ” … as TIC deverão assumir um outro papel e um outro lugar no currículo …”
O PROGRAMA do XXII GOVERNO Constitucional pretende, porque pensa “ser mais útil, apostar no ensino da computação do que nas TIC”,  para a próxima legislatura fomentar o ensino da computação; “Tradicionalmente, a informática tem sido abordada nas escolas através da disciplina de tecnologias de informação e comunicação no ensino básico e secundário. Estes conhecimentos são muito importantes para se poder exercer adequadamente a cidadania e aceder aos múltiplos recursos e serviços que, cada vez mais, apenas estão disponíveis online. Porém, uma parte significativa dos conhecimentos adquiridos em TIC poderia ser transmitida e desenvolvida no âmbito de outras disciplinas. Por outro lado, esta perspetiva das TIC, na ótica do utilizador, não proporciona conhecimento suficiente e mais profundo acerca de como funcionam os computadores, o software, a Internet ou os motores de busca. Daí que, numa perspetiva de formação futura, seja mais útil apostar no ensino da computação do que nas TIC. A computação, mais do que programação, contribui para o desenvolvimento do denominado pensamento computacional, o qual envolve técnicas e métodos para resolver problemas, criando capacidade de projetar sistemas e compreender o poder e os limites da inteligência humana e artificial. Neste contexto, o Governo irá: …”

in XXII Governo constitucional

ESPERAMOS QUE este caminho leve a que os planos curriculares melhorem no sentido dos princípios de equilíbrio, coerência, integração e sequência nos diferentes ciclos de estudo